COMITÊ DE COLEÇÕES CIENTÍFICAS
Renato Gregorin
Ana C. O. Pavan

Coleções de morcegos e curadoria

Panorâmica

Este documento tem a intenção de esclarecer de forma sumária algumas questões referentes aos acervos (coleções) de morcegos no Brasil e à curadoria de acervos biológicos. Diversos artigos têm sido publicados sobre o tema, mas duas obras e as citações lá contidas fornecem uma visão geral dos diversos tópicos sobre coleções e curadoria: Vivo et al. (2014) e Vasconcelos et al. (2016). Aqui, reproduz-se de forma sucinta o que está disponível na literatura e foca-se nos acervos de morcegos, algumas opiniões da Comissão de Coleções da SBEQ e a atual situação de nossas coleções de quirópteros.

Tipos de coleções

De forma geral há quatro a cinco tipos amplos de coleções: sistemática, de pesquisa, referência, didática e expositiva. As três primeiras estão diretamente relacionadas à pesquisa (sistemática, biogeografia, anatomia, ecologia entre outras muitas áreas) e as duas últimas voltadas para projetos de extensão e didáticos, igualmente importantes para a popularização da ciência e desenvolvimento científico e cultural de uma sociedade.

As coleções sistemáticas são em geral as que apresentam maior acervo, pois a maioria delas está alocada em Centros de Biodiversidade e nos denominados Museus de História Natural, uma tradição europeia-norte americana de séculos. No geral, estas coleções abrigam acervos de longa data (até séculos de coleta), de elevada diversidade taxonômica e abrangência geográfica, e com diversos tipos de materiais (p. ex., espécimes em álcool, taxidermizados, moldes, esqueletos, imagens, tecido, ectoparasitos, ninhos). Elas servem primariamente para estudos relacionados à área de sistemática (estudo de variação fenotípica, filogenia, taxonomia e biogeografia), mas também para estudos de anatomia descritiva e comparada, macroecologia (p. ex. padrões de distribuição e variação temporal e espacial), autoecologia (p. ex., dieta mediante análise de conteúdo estomacal e reprodução mediante análise de caracteres relacionados ao processo reprodutivo) e tantos outros. (leia mais)

Da esquerda para a direita : Coleção de Mamíferos da UFLA; National Museum of Natural History, Smithsonian Institution; Coleção ALP do Laboratório de Mastozoologia (UFRRJ)

As atuações do curador

Agregado ao valor do acervo de uma coleção está a atuação de seus curadores. E antes de discutir as várias funções e atuações dos curadores, há três princípios nos quais devemos nos nortear: 1) as coleções abrigam indivíduos, parte deles ou qualquer outro material relacionado a eles, e que tais materiais são patrimônio da humanidade; 2) sendo este material acumulado e mantido por fomento majoritariamente vindo do estado, usando em geral estrutura e o nome de instituições públicas, e principalmente, considerando que ele é patrimônio, independentemente de onde o acervo está alocado, o patrimônio é do estado e deve servir, de forma adequada, à ciência global; e 3) cada espécime é único e sua perda pode ser amenizada, mas é sempre irreparável. Cabe aos curadores considerar tais características durante o tempo de gerenciamento do acervo sob sua tutela, não se comportando como colecionadores ou como se o acervo fosse pessoal, mas tampouco negligenciá-lo.  Algumas das diversas funções que um curador tem ao assumir ou montar uma coleção são discutidas a seguir. (leia mais)

As coleções científicas são utilizadas para diversos finalidades de
estudo.

Placa de identificação do Laboratório de Chiroptera da UNESP de São José do Rio Preto.

Acervos de morcegos no Brasil

Para uma panorâmica das coleções de morcegos no Brasil quanto ao acervo e funcionamento, e para uma resposta rápida, foi elaborada uma enquete com pesquisadores de uma parte considerável de coleções nacionais. Ao todo foram elencadas e/ou contatas 41 instituições das cinco regiões políticas brasileiras: seis no Centro-oeste, seis no Norte, sete no Nordeste, oito no Sul e 14 no Sudeste (Tabela 1). Nem todas foram contatadas com sucesso, em geral pelo desconhecimento do pesquisador responsável pelo acervo. A Tabela 1 mostra alguns dados das instituições que foram consultadas (leia mais)

Recomendações para coleta, preparo e preservação de espécimes para coleções científicas e amostras de tecido para investigações moleculares

 

Ana C. Pavan & Renato Gregorin

 

1. INFORMAÇÃO ASSOCIADA AO MATERIAL

A seguir apresentamos algumas recomendações e referências para coleta e preservação de espécimes e obtenção de amostras de tecido para investigações moleculares. Como orientação inicial, é muito importante destacar que material biológico sem dados associados é de pouca utilidade. Por isso, é fundamental que pesquisadores, ao coletarem espécimes/amostras em campo, registrem da maneira mais acurada possível as informações relativas à obtenção do material. Esses dados tornam-se ainda mais relevantes com o passar dos anos, à medida que os habitats de onde as amostras procedem são modificados ou destruídos por atividades humanas, e essas informações tornam-se cada vez mais difíceis de serem verificadas.

Convencionalmente, os espécimes ou amostras coletadas devem estar associados a um mínimo de dados registrados, e de modo consistente, facilitando assim a transmissão inequívoca dessa informação e assegurando que o material possa ser utilizado futuramente para uma gama maior de investigações. Dentre as informações essenciais à identidade do material, incluem-se: número de campo (iniciais do pesquisador coletor seguida de numeração sequencial ininterrupta); tipo de preparação (se o espécime foi coletado e quais tipos de amostras foram extraídas – tecido, sangue, ectoparasitas, fezes, etc); identificação, ao menos preliminar (nome científico acompanhado ou não de anotação sobre incerteza do nome, como sinal de interrogação ou a abreviação “cf.” entre gênero e espécie); localidade (preferencialmente com coordenadas geográficas); data da coleta; sexo do espécime e condição reprodutiva (grávida, lactante, testículos visíveis ou inativo); idade (adulto, sub adulto, jovem); e medidas corporais (as mais comuns sendo comprimento do antebraço, comprimento da tíbia e peso). Além disso, é recomendado que se anote as circunstâncias da captura/obtenção do espécime, tais como habitat, método de captura (redes, abrigos, etc), hora, altura (caso o espécime tenha sido capturado em rede) e qualquer outra informação associada à localização e biologia do indivíduo.

 

2. PREPARO DE ESPÉCIMES PARA COLEÇÕES CIENTÍFICAS

 

2.1. Etiquetas e identificação

Todas as partes separadas de um mesmo espécime devem ser identificadas com o mesmo número, em etiquetas duráveis, cuja escrita deve ser resistente a álcool e formol. A etiqueta deve ser amarrada ao espécime de modo específico, de modo que o nó não afrouxe ou se desfaça com o transporte do espécime e o tempo. Portanto, aprender como elaborar e fixar uma etiqueta é um dos primeiros passos ao preparo do espécime para sua inclusão em uma coleção cientifica. As etiquetas mais simples para se utilizar em campo são de papel vegetal de maior espessura, com escrita à lápis (que não sai ou borra em formol/álcool). Ambos os materiais (papel e lápis) são baratos e fáceis de encontrar. Outro tipo de etiqueta frequentemente utilizada em campo são os rotuladores manuais. Neste caso, o custo é um pouco mais elevado e a etiqueta plástica tende a apagar o número com o tempo, mas é possível obter a numeração devido a marca (relevo) deixado pela impressão, desde que esta seja feita com força suficiente.

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Como citar informações desta página: Gregorin, G. & Pavan, A.C.O. 2018. Comitê de Coleções Científicas. SBEQ 2018.v1.<http://www.sbeq.net/colec>acessado em:

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